quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Feliz Ano Novo


Feliz Ano Novo aos que tiveram perdas no ano velho e ainda assim recolhem pedras em suas aljavas. Aos colecionadores de afetos que jamais permitem que suas lagartas se transformem em borboletas.


Feliz Ano Novo aos que asfixiam a criança dentro de si e ao que se fantasiam de palhaço para camuflar tristezas. Aos que gastam a vida contando dinheiro, sempre em débito com o amor. Aos que acumulam bens e desperdiçam virtudes, juntam poder e semeiam mágoas, galgam a fama e pisam em sentimentos.

Feliz Ano Novo aos sonegadores de esperanças e aos que crêem apenas nos valores da Bolsa. Aos mancos de bondade, cegos de utopias, ébrios de ambições e medrosos perante a ousadia de viver. Aos que têm asas e não sabem voar, são águias e ciscam como galinhas, guardam em si um tigre e miam como gatos.

Feliz Ano Novo aos que exibem no pedestal de sua mente o próprio corpo, jejuam por razões estéticas e mendigam aos olhos alheios a moeda falsa da admiração convencional. Aos que ficam inebriados diante da paisagem televisiva e, como na canção do Chico Buarque, Carolina, vêem o mundo passar na janela eletrônica.

Feliz Ano Novo aos que cercam suas almas com arame farpado, abrem com foices seus caminhos na vida e, ainda assim, não sabem que rumo tomar. Aos que traçam labirintos em seus mapas imaginários, enfeitam a vida com buquês de impropérios e rasgam o ventre da água com os seixos adormecidos no leito de seus pesadelos.

Feliz Ano Novo a todos os infelizes que fazem de suas vidas luas minguantes e se vestem com escafandro de seus temores, afogados no sal de um oceano ressecado.
Novos lhes sejam o ano, a vida e o espírito, revertidos e revestidos de ensolaradas esperanças.
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Texto de autoria de Frei Betto, Carlos Alberto Libânio Christo, frade dominicano e escritor.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Um Natal aBUNDAnte para todos!



O meu irreverente Feliz Natal, em repúdio à figura obesa de um ilusório papai noel, símbolo de fartura na mesa de poucos e distante da realidade esquálida de milhões de pessoas.

Faça alguém FELIZ neste NATALl!
São os votos de Flávia de Melo


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Terra do Nunca



A vida, por vezes, parece ser produto da astúcia de um genial roteirista. Em 2009, morreu Michael Jackson, o pop star que rejeitava a própria raça e que passou a vida refém de uma concepção fantasiosa de si mesmo e da existência. O cantor tinha um rancho chamado NeverLand, Terra do Nunca, fazia tratamentos para embranquecer a pele, usava máscaras para não se contaminar com germes e, de tanto, evitar a dor, morreu de uma dose letal, exatamente, de anestésicos.
Escamotear sofrimentos e desconfortos, não investigar as origens de certas atitudes ou sentimentos é um artifício da pós-modernidade que, com suas fartas ofertas, expõe nas prateleiras: escovas definitivas ou lentes coloridas para quem não se agrada de seus genes, Prozac e outros antidepressivos da indústria farmacêutica da alegria, cirurgias para redução do estômago em obesos, cuja compulsão alimentar ocorre nos neurotransmissores, Viagra e similares para viabilizar o sexo, vibradores, bonecas infláveis e uma quinquilharia de objetos, práticas e comportamentos capazes de evitar, a todo custo, os problemas, as tristezas e dificuldades de toda origem. Mas os milagres da contemporaneidade, ao contrário do que anunciam, com suas facilidades e soluções em modo express, não têm transformado o mundo em Terra Prometida. Os transtornos depressivos já ultrapassam a marca de 121 milhões de pessoas no planeta e se constituem na quarta maior causa de mortes, em consequência deles.
Em 2007, em São Paulo, no seminário Mutações: novas configurações do mundo, durante a palestra Depressão e Imagem no Novo Mundo, a psicanalista Maria Rita Kehl considerou: “A sociedade do espetáculo é aparentemente antidepressiva, com seus gozos, festas e sexualidade. Ela nos promete um gozo contínuo, mas a festa apresentada não existe”. E, com habitual brilhantismo, enfatizou: “é a subjetividade que produz significado para a vida”.


No entanto, há quem prefira manter-se encarcerado em suas próprias versões equivocadas da existência e de si mesmo, em que a vida precisa parecer um parque de diversões, uma ilha da fantasia (que tal a ilha de Caras?), como se fosse uma grande festa. De preferência uma rave, com coreografias robóticas, movidas a Ectasy para fabricar, artificialmente, o afeto. E, ano após ano, prosseguem embriagando-se de suas próprias mentiras, consolidando o projeto fraudulento de suas personalidades. Monstruosas criaturas, essas que resultam da simbiose entre Pinóquio e Peter Pan!





segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Generosidade: artigo de luxo na lista de Natal



O argumento dos indiferentes diante da generosidade que reaparece como tema, todos os anos, durante a época natalina é que, parte das boas práticas decorre da necessidade que os donos de bolsos mais estufados têm de diminuir o peso de suas consciências. Dois mil e nove anos depois, a mais famosa data da cultura cristã é celebrada pelo mundo neoliberal, dentro da lógica consumista em que, no Brasil, por exemplo, o aniversariante parece ter sido preterido e o peru, o principal homenageado.
A escandalosa deturpação dos valores defendidos por Jesus vai desde a suntuosidade das modernas catedrais, os shopping centers, segundo Frei Betto, onde endinheirados são ungidos por anjos-vendedores, tratados como se estivessem em um paraíso e aqueles que não têm como gastar estão condenados a arder nas labaredas do Inferno. Nas lojas chiques do shopping Cidade Jardim, em São Paulo, um vestidinho Channel, conforme conta Danuza Leão em seu último livro, custa 8.500 reais, um blazer, 12 mil reais, e o preço do ingresso de um cinema, com direito a garçon servindo vinho ou champagne, a bagatela de 50 reais!



O que não custa é lembrar que o filho de José e Maria nasceu numa manjedoura, espécie de berço de palha, em um forte simbolismo de humildade e despojamento material. Contraditoriamente, o maior símbolo do Natal capitalista é a ilusória figura obesa de Papai Noel, com seu trenó abarrotado de objetos materiais, embrulhados em papel para impressionar. E o cenário alegórico segue com corações gélidos que preferem aquecer suas ceias para o ritual do pecado da gula, em mesas fartas e vazias de espiritualidade. Alguém, por acaso, já ouviu falar da sensação de estranha tristeza que algumas pessoas sentem no período natalino?
Bem antes da popularização de conceitos como Responsabilidade Social, Inclusão, Terceiro Setor e outros, o sociólogo Herbert de Sousa, o Betinho, foi o primeiro a converter solidariedade em política social e a rejeitar a noção de caridade como pieguice, com o seu Natal sem Fome. Uma minoria segue o exemplo de seres humanos extraordinários como Betinho, Jesus, Madre Teresa, Chico Xavier e tantos iluminados. Preferem arrotar suas ilusões materialistas, tomando sal de frutas para aliviar os excessos que, por mais paradoxal que pareça, decorrem de seus vazios.
A generosidade exige como pré-requisito a virtude incondicional de amar. E amar, convenhamos, não é tarefa das mais fáceis. Só quem se emociona diante de olhos marejados de fome ou de dor consegue realizar, sem culpa, o exercício fundamental do Bem. Não basta desejar a maior ambição do ser humano na Terra, a felicidade. É preciso fazer alguém feliz. FELIZ NATAL!


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009



Dez mil ideias em 2.010!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Poesia no chão




As vitrines de Chico Buarque é a trilha sonora que embala esse domingo úmido em mim. Uma delicada melodia emotiva contrasta com os gritos enlouquecidos dos aficcionados por futebol, esporte pelo qual nutro uma indiferença siberiana. Aconchegada a mim mesma, ouço apenas a música no meu interior: “...passas sem ver teu vigia, catando a poesia que entornas no chão”.
Lembro de um poema infantil, tosco que cheguei a rascunhar no ano que chamei de Mil novecentos e noventa e triste! A alma, dilacerada como numa letra de tango, escrevia: “reciclando desejos, intenções... do meu lixo interior ao papel da poesia”. Agora a reflexão inversa questiona o porquê de tantas possibilidades preciosas serem desperdiçadas, menciona os alquimistas fracassados que, ao invés de transformarem metais em ouro, fazem diamantes virarem pedaços de vidro.
Prefiro os desertos que florescem, as lágrimas que salgam a boca, que mais tarde sorri. Sou regida pelo signo da mutação, da transformação. Sou jornalista por paixão e convicção de acreditar numa folha em branco que, aos poucos é preenchida por caracteres, capaz de influir em decisões e até mudar destinos. A mim fascinam as tintas que dão vida à tela vazia e provocam fantásticas experiências estéticas. Percebo na dádiva de viver o imperativo da renovação, desde a pulsação do oxigênio e das veias que nutrem o organismo incessantemente. Sou adepta da ressignificação dos acontecimentos que não se aprisionam em um ponto final, mas que descortinam novos capítulos, como na fábula erotizada de As Mil e Uma Noites.
Incomoda-me o fracasso dos que não foram, entristece-me a morte do que não chegou a nascer, as cachoeiras que deixamos secar, a poesia que tantas vezes jogamos no chão e o amor que resultou inútil, como no lamento drummondiano. Os gritos lá fora aumentam. O jogo acaba. Dentro mim, Chico continua cantando: “Te avisei que a cidade era um vão, dá tua mão, olha pra mim, não faz assim, não vai lá, não...”


















segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Blogueiros do Maranhão: Davis contra Golias na Comunicação




Nas primeiras horas da manhã de sábado, eu e uma pequena comitiva de guerrilheiros da comunicação pegamos a estrada rumo ao município de São Mateus, localizado a 180 km de São Luís, para participar do I Encontro de Blogueiros do Maranhão. Não poderia ser mais sugestivo que o evento fosse realizado na cidade que tem o nome do apóstolo ao qual é atribuída a autoria do primeiro evangelho cristão. Evangelho, do grego evangelion, significa “boa nova”, “boa notícia”.
Para quem enfrentou, de 2004 a 2006, um desafio sem precedentes na história da Comunicação do Estado, participar de um encontro que reuniu a força dos pequenos proprietários da notícia trouxe um significado especial. Há algum tempo tenho, confessadamente, reverenciado as possibilidades de democratização da comunicação, oferecidas pela Internet. Se não plenamente de democratização, mas pelo menos de contraponto às tradicionais formas de manipulação da informação, concentrada no monopólio dos grandes veículos. As leituras das obras do sociólogo espanhol Manuel Castells, autor de A sociedade em rede, entre outras, só fizeram ampliar ainda mais essa percepção, que cresce em proporções semelhantes às redes sociais e às ferramentas como blogs, sites, portais, MSN, Facebook, Sonico, Orkut e outras.



Citando o professor Albino Rubim, o jornalista Márcio Jerry definiu com exatidão o paradoxo entre a Idade Mídia e a situação social de um Maranhão que ainda rasteja, em diversos aspectos, pela Idade Média. Aproprio-me da fala do colega para descrever como sendo este o maior sentido de um encontro de blogueiros num Estado em que, há três anos, tivemos que recorrer à comunicação alternativa para divulgar informações de interesse público e apelar aos mecanismos de contra-informação, frequentemente usados em regimes de exceção. Com o fenômeno dos blogs e a possibilidade de formar redes, acrescidos das características de interatividade, instantaneidade e convergência das mídias, uma comunicação compartilhada e cada vez mais horizontal começa a desafiar a hegemonia da Midiabólica. Como os vietnamitas na guerra contra os norte-americanos, os pequenos Davis agora ameaçam o gigante Golias. Pela ousadia de Jônatas Carlos (São Mateus em Off), de São Mateus, pela dedicação de Ludwig Almeida e Ademar Sousa (Tribuna do Maranhão), de Timon e de tantos outros, o nosso reconhecimento e incentivo.









Mais links sobre o evento:
http://www.tribunadomaranhao.com.br/noticia/primeiro-encontro-de-blogueiros-do-maranhao-3287.html






























































































sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Diário de Bordo n. 41




A metáfora da existência como um trem é das minhas preferidas. Além do romantismo imagético de um meio de transporte dos mais antigos, possui força poética semelhante a um bom filme ou um livro. A música Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant, é a mais próxima referência ao meu alcance agora: “A hora do encontro é também despedida” ou “...tem gente que chega para ficar, tem gente que vai para nunca mais”.

Nesse vai e vem, de chegadas a partidas, sou dona de um patrimônio precioso, daqueles que só depois de acumularmos alguns anos bem vividos podemos nos ufanar de possuir: amigos com quase 20 anos de convivência, outros com 15 anos de amizade, amores que se transmutaram em amizades sagradas e alguns remanescentes da infância que, tardiamente (e sob protestos!), já começa a se distanciar no espelho retrovisor. O melhor desta viagem é a paisagem humana que surge no trajeto, desenhando novos e recorrentes significados dentro de mim. A riquíssima experiência de viver possibilita, além dos aprendizados necessários à viagem, o degustar de sabores, o conhecer de lugares e a possibilidade de nascer novamente todos os dias, sob as bênçãos do sol da manhã neste hemisfério do planeta.
O ritual de passagem proporcionado pelos aniversários nos oferece reflexões desta natureza. Na cabine do trem onde viajo já passou uma diversidade fantástica de pessoas, algumas permanecem respirando forte em minha memória, outras repousando em álbuns de fotografias e há ainda as maravilhosas descobertas de 2009, umas como páginas que não foram lidas, capítulos inteiros desperdiçados, quem sabe, talvez numa próxima parada. Uns continuam a viagem ao meu lado, outros se perderam na estação. Necessária se faz a intromissão da inevitável pergunta que intriga a humanidade: para que, afinal, estamos todos neste trem que viaja? A mim me bastam minhas próprias convicções pessoais como respostas: converter a existência em uma experiência edificante. Trabalhar, amar, emocionar-se e viver abundantemente como ensinou o antropólogo chileno.  Sangue, suor e lágrimas nos redimem da imbecilização coletiva. Cabe repetir o poeta Leminski: “Essa vida é uma viagem. Pena eu estar só de passagem”.





segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Não à arrogância da Midiatização! Comunicação para a cidadania.


A midiatização da sociedade, de modo predominantemente vertical, começa a ter sua suposta tirania questionada. O discurso arrogante das mídias, controladas por interesses variados, começa a perder efeito em uma era de interconectividade, interatividade e instantaneidade, em que as redes sociais proporcionam o protagonismo daquilo que se chamava, nos moldes funcionalistas, de recepção.
Acrescente-se a essa constatação uma contemporaneidade em que todos os aspectos da vida organizada contemporânea são estruturados a partir de mecanismos de comunicação/informação, entre eles: a economia mundial e os mercados financeiros interligados, as migrações e seus conseqüentes processos de hibridizações culturais, a integração entre as nações diante de questões planetárias que globalizam a agenda de debates, as novas formas de relacionamentos mediadas pela tecnologia e os diversos impactos de tais fenômenos na arte, na cultura, na política, na educação, nos comportamentos e em tantos outros setores.
No entanto, a apologia à revolução comunicacional, necessita das devidas ressalvas. A ex-prefeita de Campinas, SP, Izalene Tiene, que realizou uma administração modelo na comunicação, considerou, com coerência: “Se a base econômica mundial tem produzido muito no âmbito da comunicação sem, contudo, melhorar as condições de vida das pessoas, precisamos refletir sobre as perspectivas de desenvolvimento que queremos ou que sociedade pretendemos produzir”.
É inequívoco o poder da comunicação na atualidade. Em uma análise restrita ao Brasil, o controle escandaloso das concessões de TV nas mãos de políticos e agora, com mais ênfase, de grupos religiosos é apenas um pálido exemplo. Entretanto, a força dos meios não tem se convertido em instrumento de cidadania e ferramenta de educação popular.
Em um país vitimado pela enorme dívida social, por tragédias resultantes de artifícios midiáticos - que remontam desde a época em que o General Médici (1969-1974) declarava que se sentia feliz porque “na TV Globo o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz” - é urgente a realização da Conferência Nacional de Comunicação.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Namorar o cotidiano





A predominância auto-biográfica nesses escritos, a busca por remexer reminiscências, parecem revelar minha alma vetusta, sorrindo como se estivesse à beira de seus 90 anos de idade. O artigo de Danuza Leão, na Folha de São Paulo, do último domingo, evocou novamente recordações e trouxe à lembrança uma herança de comportamentos de meus dois avôs, paterno e materno, especialistas na arte de namorar as pessoas.
Em um texto delicado, singelo, sem maiores pretensões, a colunista defendeu a necessidade de adotamos uma espécie de namoro, mas sem a conotação sexual. “Uma coisa leve, de um charme suave que deveria existir entre todas as pessoas, em todos os momentos do dia”, explica. A cronista ilustra algumas situações, devidamente amaciadas pelo comportamento namorador, como a de alguém que senta num bar e substitui a cara amarrada pelo sorriso ao pedir: “será que vocês têm aqueles cajus maravilhosos para eu tomar a melhor caipirinha da cidade?” Ou ainda o episódio ocorrido com uma amiga que, no aeroporto de Roma, pediu uma água mineral e quando perguntou ao garçon quanto era, ouviu: “Para você, 400 libras”. Danuza, em texto próximo de uma conversa íntima entre mulheres, comentou que tudo bem que ela tinha marido, filhos, embarcando pra casa e não tinha a menor intenção de largar tudo para o alto e viver um romance, mas que gostou, ah, gostou...
A crônica me lembrou a herança de delicadeza deixada pelos meus avôs, Santos Melo e José Bezerra. Raimundo Martins Melo, o meu vovô Santo, ganhou o apelido em seu município, na Baixada Maranhense, por ser tão generoso, a ponto de ser chamado de Santo, Seu Santo. Afetuoso ao extremo, na minha infância, ele trazia chocolates e doces do interior e conversava horas comigo com um carinho transcendental. Lembro dele com uma nota de um cruzeiro na mão, explicando para mim a cultura da inflação entranhada no Brasil, assim: “antigamente, filhinha, essa nota dava para comprar 10 bois!”. Quando eu era castigada pela danação que belisca minha personalidade até os dias atuais, ele dizia: “Seu avô não quer mais ver você de castigo”. O meu avô José de Paula Bezerra, ainda entre nós, com seus 94 anos de idade, nos seduz com pastilhas, frutas, bolos para levarmos para casa. Possui, no próprio nome, a virilidade do José e a sensibilidade feminina de Paula. Com hábitos de monje, Vovô Bezerra acorda todos os dias às 5 da manhã, vai ao Mercado Central, local onde é tão pop star quanto um Michael Jackson. Ao acompanhá-lo, certa vez, fui apresentada a todos os feirantes do mercado, com todo aquele orgulho de avô, quando escutei de uma dona de boxe: “ah, esse aí é meu noivo”. Fácil descobrir o motivo, observando o jeito especial de meu vovô namorar as pessoas.
E, afinal, ser gentil, ter chamego no olhar e namorar, com cada gesto ou palavra, são poderosos afrodisíacos na lua de mel de quem vive um caso de amor com a vida. E ainda, como ensinou Danuza: “namorar, sempre, e sem nenhuma conotação sexual, Porque com essa conotação, fica melhor ainda”.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Terra das palmeiras onde vivem algumas avestruzes


Os últimos anos, marcados pela sucessão de acontecimentos políticos que expuseram, para todo o País, as vísceras do Maranhão, tiveram também a providencial utilidade de serviram como um soco na apatia generalizada aqui instalada. No entanto, na terra onde rezam lendas de serpentes e carruagens mal assombradas, ainda predominam versões fantasiosas e interpretações superficiais em torno da árida realidade social do Estado.
A ratificação de tais constatações é resultado da minha participação, na semana passada, na VI Jornada Maranhense de Sociologia e no II Seminário Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente, realizados pelo Departamento de Ciências Sociais da Ufma. A discussão de pesquisas e exposição de temas relacionados aos impactos contemporâneos dos chamados grandes projetos de desenvolvimento, particularmente no Maranhão, evidenciou a consolidação de um importante pólo de estudos de tais questões, lamentavelmente separado por um enorme fosso entre Universidade e sociedade.
Questões fundamentais à agenda de desenvolvimento do Estado foram trazidas à tona, sem que a Imprensa tacanha local sequer tivesse a mínima curiosidade de pelo menos passear pelo evento, um celeiro de importantes pautas. A minha vergonha pela omissão dos colegas de profissão, na situação de jornalista acanhada diante de jovens de 20 anos que relatavam, com entusiasmo, suas experiência em pesquisas de campo relacionadas a migrações de trabalhadores e outros problemas sociais, só não foi maior porque tive a alma lavada pelo coordenador da iniciativa, o professor Doutor Horácio Antunes de Santanna Júnior que, no encerramento, clamou: “A sociedade não pode fazer coro à louvação que a Imprensa local e as autoridades fazem destes projetos”.
Só para pontuar a consistência do tema, revelo alguns dados devidamente colhidos pela saudade de voltar a ser repórter: o município de Timbiras é o maior pólo de trabalhadores rurais que migram para as lavouras de cana de açúcar para São Paulo; o assorreamento da Baía de São Marcos, por lixo de navios e outros resíduos, já avança a margem de 2 Km; a monocultura de soja e eucalipto que só serve às mineradoras, se alastra pelo interior do Estado com efeitos danosos, a hidrelétrica de Estreito só emprega 9% de mão de obra maranhense e muitas outras informações que denunciam um processo saqueador adotado nos tais projetos de desenvolvimento. Sobre a propalada Refinaria, a história parece próxima daquela notinha de um famoso colunista social maranhense que, na década de 80, início da implantação do projeto da Base Espacial de Alcântara, profetizava “naves espaciais” e “hotéis intergaláxicos”. Para a nossa desgraça, o Maranhão bocejante da serpente adormecida está mais próximo dos Flintstones do que da família Jetson.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Mercedes Sosa: um hino à vida







Mercedes Sosa é parte fundamental do mosaico de minhas memórias de infância, que guardam também um Chico Buarque ainda estreante nos festivais de musica, o Milton Nascimento das Gerais, misturados aos personagens de Monteiro Lobato, Malba Tahan e tantos outros. Aquela voz rascante que saía da radiola de casa, cantando Volver a los Dezessiete se confundia ao cheiro da cerveja de papai aos sábados, às tintas de canetas esferográficas vermelhas que corrigiam provas de alunos e a um universo determinante na formação de quem eu sou.
A morte da cantora argentina, ao contrário do significado fúnebre, me trouxe de volta o furor de uma lembrança de vida, uma emocionada certeza da necessidade de repetir, incessantemente, outra de suas interpretações, Gracias a la vida, uma oração em forma de música. Agradecer à vida por ter nos dado tanto, como canta Sosa, é um modo de compreender a sacralidade da existência e reafimar a conexão com tudo aquilo que nos nutre e nos mantém vivos. Na composição de Violeta Parra, ela agradece à vida pelos ouvidos, pelos olhos, pelo coração, pelos pés cansados, pelo riso e pelo pranto, impregando de poesia o ato de existir e depõe: “Agradeço à vida por ter me dado tanto, me deu o ouvido que, com sua largura grava noite e dia, grilos e canários martelos, turbinas, latidos, chuviscos e a voz tão doce do meu bem-amado...”
Em Volver a los Dezessiete, a alquimia dos dias que opera transformações no laboratório do tempo: “Tudo muda a todo momento, qual mago condescendente nos afasta, docemente, de rancores e violências. Só o amor com sua forma nos transforma tão inocentes”.
Mercedes ficou conhecida como a voz dos sem voz, cantando em defesa dos pobres e injustiçados. Vítima das arbitrariedades da Ditadura, chegou a ser presa no palco, durante um show. A grande representante do movimento musical Nueva canción, com raízes africanas, cubanas, andinas e espanholas, cantou seu próprio legado em Solo le pido a Dios: “Só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, que a ressequida morte não me encontre, vazia e só sem ter feito o suficiente” - manifesto dos que se recusam à mera satisfação apequenada de seus desejos pessoais e crêem que a Vida há sempre de se impor de maneira maior, na grandiosidade de um projeto de felicidade coletiva.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Cemitério de amores perdidos





Reli, por acaso, um texto antigo do escritor João Silvério Trevisan em que ele menciona possuir no armário um envelope de nome cemitério de amores, com declarações, cartas de amor, fotos e lembranças afins de relacionamentos passados. O texto me devolveu à lembrança uma carta que guardei na carteira, durante anos, escrita por um dos meus primeiros amores (assim mesmo: no plural, em uma construção que remete à idéia nupcial, o ineditismo próprio da natureza amorosa a provocar sempre a sensação de primeira vez). A letrinha escrita à mão dizia, em impecável retórica: “o que dizem que é pouco amor por mim eu prefiro achar que é muito amor por ti”. Dois anos depois, numa heróica tentativa de transformar o que havíamos vivido, escrevi um poeminha franzino, com jeito adolescente, que celebrava o fim daquele romance, assim: “...do meu lixo interior ao papel da poesia.” Quase 20 anos depois, ainda guardo esse amor como um troféu, transmutado pelos anos com ingredientes que ganharam novo sabor, sob o fogo brando da ternura, do respeito, da sinceridade e da admiração mútuas. A ele dedico esse alinhavo de texto e confissão. O novo formato de amizade e amor lembra a canção de Caetano: “...Assim como o amor está para a amizade e quem há de negar que esta lhe é superior?...”
Mencionar cartas de amor, heróicas tentativas de tornar belos momentos que tropeçaram em situações feias soa até anacrônico numa época em que namorar só faz sentido se for para exibir como uma roupa nova de última moda, comprada nos shopping centers das boates e bares, com suas ofertas variadas, algumas até em promoção. Não é à toa que proliferam publicações do tipo Caras (de pau?), Contigo (comigo não, violão!), Quem (como assim?!?) cujas linhas editoriais privilegiam a vulgarização da intimidade alheia. Embora diante de tais comportamentos moderninhos, por vezes eu me sinta como uma freira em trajes íntimos, em plena praia de Ipanema, prefiro frequentemente minhas festinhas na abadia e as alegrias do meu mosteiro.
Apesar do título da postagem, amores não se perdem e nem são enterrados em cemitérios, eles permanecem. Ego, vaidade e interesses mesquinhos travestidos de paixões equivocadas, sim, merecem um túmulo. Bom mesmo é depois do enterro, olhar para trás e concordar com Aldous Huxley: “Experiência não é o que acontece com você, mas o que você fez com o que lhe aconteceu”.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Apelo publicitário ou cantada barata?



Um casal completamente asséptico ilustra as peças de uma campanha publicitária que menospreza a inteligência dos consumidores maranhenses com o mote Sua vida também pode ser perfeita. Anunciado como um dos mais ousados empreendimentos imobiliários da capital do Maranhão, o Farol da Ilha aparece, em recente estratégia de vendas, como uma mera lanterna desfocada e sem pilhas suficientes para colocar em evidência a consistência de seus argumentos. Os atores, Cláudia Raia e Edson Celulari, sorriem como se fosse possível ter uma vida inteira sem crises conjugais, sem problemas com os filhos, sem doenças, sem quebras de sigilos bancários, temor mais próximo da realidade de determinados segmentos das classes emergentes, enfim, sem dificuldades de espécie alguma.
Mas a peça vai muito além da alusão óbvia ao perfil editorial da revista Caras, com suas páginas de contos de fadas, onde tudo é maravilhoso, a vida é um parque de diversões, uma eterna celebração hedonista regada ao champagne Veuve Cliquot e com direito a malas Louis Vuitton para guardar as dificuldades. O conceito de uma vida perfeita é discriminatório e abusado. A vida é uma desgraça, na concepção da campanha, para os de casta inferior, e perfeita somente para quem pode comprar um apartamento no Farol da Ilha, em torno de 1 milhão de reais. E por falar em dinheiro, bem próximo dali, na Ilhinha, os pequenos comerciantes reclamam do medo de assaltos constantes no local.
Ironias à parte, é evidente que o princípio da mensagem publicitária é a sedução. O apelo positivo em nenhum momento deve evidenciar os achaques e males que compõem este (com o perdão pela ofensa aos bon vivants!) Vale de Lágrimas. A moderna propaganda deve considerar as mutações contemporâneas e não subestimar seu público com chavões apelativos similares a uma cantada barata. Nestor Cancline que, ao lado de Jesús Martín-Barbero, é um dos maiores investigadores da comunicação, cultura e sociologia da América Latina, considera o mercado não como um simples lugar de troca, mas como “parte de interações socioculturais mais complexas”. E aponta: “nenhuma sociedade e nenhum grupo suportam por muito tempo a irrupção errática dos desejos, nem a consequente incerteza dos significados”. Cancline, genial, considera o consumo como uma espécie de pertencimento, resultado de múltiplas interações.
Existe uma brutal diferença entre pagar um cachê para globais, finalizar um lay out, jogar um título apelativo e elaborar uma campanha com base na análise do entorno cultural e em outros aspectos importantes. A publicidade mundial está revendo seus conceitos. Espera-se que os empresários no Maranhão também percebam o fenômeno.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A liberdade da ternura



Fiz essa foto de Leonardo Boff, na Estação das Docas, Belém do Pará, durante o Fórum Social Mundial, uma das grandes alegrias que me permiti ter em 2009. Há alguns anos, Boff descortinou em mim um universo temático com correspondência de eco forte. Ícone de um tempo que não comporta mais o modelo predatório na economia, no meio ambiente e nas relações humanas, Boff é Doutor Honoris Causa em Política pela Universidade de Turin (Itália), professor visitante da Universidade de Lisboa (Portugal), da Universidade de Salamanca (Espanha), Harvard (Estados Unidos), Basel (Suíça), Heidelberg (Alemanha), além de semear suas observações em diversos outros centros de estudos, tendo recebido, em 2001, o Right Livelihood Awards, espécie de Prêmio Nobel da Paz alternativo.
Escoro meu texto claudicante agora em uma das geniais reflexões de Boff: “A relação de ternura não envolve angústia porque é livre da busca de vantagens e do espírito de conquista”. A ternura é tema que dialoga com a proposta biocêntrica que compõe minha galeria de interesses, incluídos diversos nomes, entre eles, Rolando Toro, Leonardo Boff, Roberto Crema, Martin Bubber e a rede de pensadores das chamadas “minorias criativas”, em defesa de mudanças evolutivas.
Em carta a Lula, logo após sua eleição, em novembro de 2002, Leonardo Boff escreveu, de modo profético, no Jornal do Brasil: “O poder é a maior tentação para o ser humano, pois ele nos dá o sentimento da onipotência divina. Ele é vigor puro. E ficando só vigor, ele é destrutivo. Só a ternura limita o poder, fazendo com que ele seja benfazejo”. Na esfera política, o prenúncio foi cumprido a ponto de a contaminação com o poder ter gerado o “lulismo”, a defecar o “petismo” na mesma descarga dos outros partidos. No plano pessoal, interessa-me a liberdade da ternura, a delicadeza do afeto com o único poder de curar profundas ulcerações emocionais, apascentar inquietações atávicas.
Mas a afetividade parece pouco à vontade numa era em que o consumismo desenfreado inaugurou um modo neoliberal de relacionar-se. Os mecanismos capitalistas de envolvimento emocional foram sofrendo das tais mutações da contemporaneidade: antes era “ficar”, com vestígios de vínculos que ainda existiam nas relações. Agora é “pegar”, um verbo bem mais adequado aos tempos em que se pega em qualquer prateleira, tipos que atendem a diversas necessidades imediatas, instantâneas, distantes da possibilidade de construção de um projeto amoroso mais nobre. O desejo, e suas filigramas psicanalíticas, sorri triunfante, mas cai combalido em cada frustração, correspondente à sua própria lógica de manutenção, decorrente da falta. E sempre que a ternura é afetada, as angústias retomam para suas velhas poltronas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O Machado de Assis de nosso texto nos dai hoje




Com euforia de quem abre uma carta de amor, recebi esta semana pelo correio uma encomenda especial: um livro esgotado sobre a obra de Machado de Assis, embrulhado pelo livreiro de um sebo, naquele papel pardo que encapava a infância de meus cadernos de colégio. O romantismo daquele papel de embrulhar pão se misturou à minha fome insaciável de descobertas, devolvendo uma alegria adolescente que, vez por outra, irrompe os momentos de achados preciosos.
Machado é um dos principais alimentos do meu propósito de sobreviver do texto. Integro a legião dos que se deleitam, anualmente, com este que é, segundo Gentil de Andrade, “a maior glória literária do Brasil”, dono de uma escrita Capitu – referência aqui feita à sinuosidade de um estilo literário que costuma se revelar de maneira oblíqua, irônica e, como ele próprio, pouco dada ao exibicionismo das sociedades das embalagens. Mesmo desprovido de realismos fantásticos, adiciona o ingrediente misterioso na narrativa. E consegue a proeza de misturar pessimismo e humor numa receita única, admitida em Brás Cubas (em que diz ter escrito “com a pena da galhorfa e a tinta da melancolia”). O autor de Dom Casmurro costuma reunir uma heterogênea massa de admiradores em torno de si.
Minha entrada no mundo do escritor foi tão inevitável quanto precoce. Ainda adolescente, vi meu pai debruçar-se sobre um estudo sobre a carnavalização na obra O Alienista, de Machado de Assis, que passou a ter um sabor ainda mais apurado para mim, após anos de degustações e muitos momentos de embriaguez. Reminiscências à parte, todas as elaborações em torno da produção machadiana parecem fragmentos a compor a grandiosidade da obra inesgotável. O jornalista Daniel Piza, autor da biografia Machado de Assis: um gênio brasileiro reuniu mais de 200 livros sobre o escritor, durante 10 anos de pesquisa. A Flip, Festa Literária Internacional de Paraty, do ano passado, homenageou Machado pelos 100 anos de sua morte. Lá, comprei o livro Quem é Capitu?, no qual escritores, ensaístas e outras personalidades tentam responder à pergunta sobre a mais intrigante personagem da literatura nacional. Comungo das teses de que a resposta do enigma capitolino está nas neuroses do narrador Bentinho. Bem mais importante do que a suposta pulada de cerca da esposa é o modo machadiano de narrar, capaz de ter atravessado os séculos ainda suscitando debates, questionamentos e fomentando uma formidável variedade de estudos e escritos, como este despretensioso rascunho.
A ironia com que Machado constrói frases sobre percepções diante da realidade compreende o meu mais recente interesse. Divido com os visitantes deste espaço tão íntimo, duas das várias preciosidades frasísticas, impregnadas do genial tom irônico. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, ele escreve: “Marcela amou-me durante 15 meses e 11 contos de réis, nada menos”. Em Relíquias de Casa Velha: “Loteria é mulher: pode acabar cedendo um dia”.








O povo brasileiro e a permitida ultrapassagem de criatividade





Nasci brasileira. Deus deve ter tido lá suas razões para me fazer nascer num país governado por um presidente que se utiliza de metáforas ridículas para descrever as questões nacionais. Com frequência, sinto-me uma inglesa: não furo fila, não falo alto. Sem posar de fresca, detesto a cultura dos adeptos do jeitinho brasileiro que, em vez de descambarem para a customização criativa, preferem passar a perna e levar vantagem em tudo. Agem como aquela frase popular de pára-choque de caminhão: “Preguiçoso é como dono de sauna, vive do suor dos outros”. A questão central: onde começa a preguiça e onde terminam as oportunidades ceifadas de tantos dos nossos?
Viver em uma nação que, há séculos, pouco tem feito para tirar seus filhos da desgraça que é a lacuna educacional é um ultraje. Os órgãos oficiais se ufanam que o Governo Federal estaria aplicando 4,6% do PIB em educação contra 4,4%, de 2006, e a meta é chegar ao patamar de 5% até 2.010. Piada. Há alguns anos economias com porte semelhante à brasileira, já destinam um percentual bem maior, a exemplo da Coréia do Sul, por exemplo, que destina 7,2% do PIB para a educação. O México aloca 6,4% do PIB em educação.
No entanto, me enternece o modo como a população sofrida metaboliza o entendimento parco das coisas. Aprecio a criatividade espremida daqueles que, mesmo sem a palavra mágica da oportunidade, fazem de um churrasquinho de gato, um exemplo de refinada gastronomia criativa, em um cardápio unicamente nacional. Recebi, recentemente, da amiga e professora Carime Jadão, especialista em Educação Biocêntrica, uma sequência de fotos de placas que só se justificam como sendo resultado de uma maneira nacional de inventar e se adaptar às situações, sem par em nenhum outro país do planeta. Entre as pérolas fotografadas estão um outdoor de propaganda de motel com o apelo: TRAGA ALGUÉM PARA COMER AQUI (almoço grátis). E ainda: CHURRASQUINHO DO CEARÁ (de gato siamês, criado na ração, nunca comeu rato). Difícil mesmo é ter que escolher entre comer na churrascaria SERVE-SERVE-SE ou na padaria com o sugestivo cartaz: PRECISA-SE (sic) DE CLIENTES. Se o cidadão escapar da morte, no HOSPITAL MATADOURO, pode até alimentar a esperança da crença na vida após a morte na FUNERÁRIA NASCIMENTO. Seríamos muito mais se essa genialidade brasileira, a exemplo de talentos como o conterrâneo maranhense Joãosinho Trinta, recebesse os necessários estímulos e incentivos educacionais e artísticos. Emergindo sempre da podridão de políticos safados, Joãosinho mostrou que O Brasil é um luxo.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Lição de Casa


Meu pai me criou com as mãos sujas de giz. Engenheiro da sintaxe, calculava orações, reprovava as concordâncias erradas, media vírgulas no espaço adequado. Nunca chegou a pedreiro da construção verbal, embora o teria sido facilmente com sua letra feminina, acarinhando palavras e colocando nas folhas de papel em branco, sobre a mesa de jantar, todas aquelas delícias literárias que Barthes devassou em O Prazer do Texto. 

Os escaninhos da minha memória afetiva guardam os bolsos de suas camisas manchadas de tinta de caneta esferográfica, geralmente da marca Parker. Aos 7 anos, ele me convocava, solene, para ouvir sua interpretação de Pedro Pedreiro, O que será (À flor da pele) e outras arquiteturas poéticas buarquianas que desafiavam a gravidade da minha tão recente existência.


Na sala, aos sábados, após o meu ritual preferido das compras com ele e mamãe na Mercearia Lusitana (que, embora todos os azulejos portugueses no casario colonial de São Luís, foi para mim a mais forte referência sentimental deixada pelos portugueses no Maranhão), costumávamos ficar juntos, ouvindo na radiola músicas de Chico Buarque ou Milton Nascimento: ele com sua cervejinha e eu embriagada daquela explicação sobre as construções poéticas das letras do sobrinho de Aurélio Buarque de Holanda. Durante a noite, aos finais de semana, a agulha Schure deslizava suavemente sobre discos de músicas francesas, intercaladas (nada caladas!) por gemidos de J’taime, Mon amour! que embalavam o namoro entre ele e minha mãe no sofá, longe dos nossos olhos já cerrados pelo sono tranquilo de uma infância feliz. Cresci com um pai que oscilava entre ser, por vezes um Nelson Rodrigues, por outras um épico Gonçalves Dias. Ou que parecia verbalizar, conservador como um capítulo do Velho Testamento, e em outras ocasiões, como um livro safado de Adelaide Carraro, com suas frases irreverentes a desarrumarem o ambiente clássico de família, conservado pela dedicação da minha mãe.

Estavam sempre lá, depois do almoço, ele na rede e mamãe na cama, ambos discutindo questões gramaticais ou corrigindo provas. Dele herdei a paixão pelas canetas e a devoção pela Última Flor do Lácio. Como não amá-la, venerá-la, inculta e bela, minha Língua Pátria? Meu pai é o professor Botão, autor de escritos como "A Oração e seus termos", estudos sobre a carnavalização na obra O Alienista, de Machado de Assis e de “Amor, elemento irônico na obra de Proust”. Por questão de dois dias, teria nascido no Dia do Professor, sacerdócio ao qual ele se dedicou, durante décadas. Meu pai, Alexandre, que basta ter sido Grande para mim. Uma imensidão de gente. O ranger de sua inseparável rede vai me acompanhar por toda a minha vida.









terça-feira, 21 de julho de 2009

Estelionato afetivo


Só quem já foi vítima de um estelionato afetivo sabe a amplitude da frase da escritora tcheca Monika Zgustova: “Portar máscaras durante longo tempo estraga a pele.” A questão, que envolve vítima e carrasco, presa e caçador, no terreno escorregadio de certas relações afetivas, também desmascara o baile do enredamento emocional. No entanto, na maioria das vezes, tanto o algoz quanto o suposto vitimado utilizam máscaras para esconder suas deformidades, variando entre compulsões, carências, déficit de auto estima, inflamação do ego, neuroses variadas e até psicoses. Provavelmente, a confusão começa com a ideia de que o desejo precisa ser algo fugidio, escorregadio, obscuro, inalcançável, representado no mito de Eros que só se realiza na escuridão da metáfora de um quarto e, após a vela ser acesa, desaparece consolidando sua própria natureza oculta.
Para alguns, o estelionato ao qual me refiro, esconde-se sob o falso manto da sedução que não se deixa revelar totalmente – quando, de fato, o que não é mostrado nesse jogo é sua verdadeira face e a contravenção de se alojar no ambiente ambíguo da linguagem, ou um lugar de fala, conforme convencionou classificar Barthes. Em Fragmentos de um discurso amoroso, o genial intelectual constrói enunciações em uma obra que estabelece “o lugar de alguém que fala de si mesmo, apaixonadamente, diante do outro (o objeto amado) que não fala”. Uma variedade formidável de ciladas são descobertas na leitura, como por exemplo, a de que o outro está destinado a um habitat superior no Olimpo, no capítulo sobre Dependência e a elementar constatação no capítulo Por quê?: “Ao mesmo tempo em que se pergunta, obsessivamente, porque não é amado, o sujeito apaixonado vive na crença de que, na verdade, o objeto amado o ama, mas não o diz”.
Acrescenta-se a essa filosofia fast food a voz rouca de Tom Jobim cantando Lígia, um clássico da contradição amorosa, em que mentiras e verdades dançam como bailarinas vendadas diante de olhos cegos, revelando-se em mágoa, no ato final, com a conversão: “Fiz um samba canção com as mentiras de amor que aprendi com você”.
Passei algum tempo atrás ouvindo um mantra de Dadá Coelho, jornalista que sobrevive de humor (que nos resta, senão rir da palhaçada que é o comportamento de boa parte da imprensa no Brasil?): “quem ama, viabiliza!”, “quem ama viabiliza!”. Às ouvintes desta rádio, que escrevem pedindo conselhos, só conheço um: para desligar de alguém, é preciso ter a certeza de que o Amor é como o slogan daquela operadora de telefonia móvel: Simples assim! Sintomas mais fortes ou menos intensos do que a cumplicidade, a ternura apaixonada, a alegre convivência entre desejo e admiração, mulherada, são assuntos para serem tratados em divã!

Projeto Infinito




Sim, eu tenho desejos maiores. Acredito na Força Suprema do Universo, creio que a existência possui uma finalidade superior, abomino a idéia simplista de que meu destino final aqui na Terra é o de servir para alimentar vermos no caixão. Essa é a oração a qual recorro agora, como filha pródiga que cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água. No livro Mosca Azul, guardei comigo a sabedoria poética de Frei Betto, quando ele escreve: “o júbilo do coração quase sempre paga tributo se ainda não descobrimos os vôos do espírito”. Quero o alçar os vôos do espírito e apreciar as paisagens que não podem ser vistas em alguns lugares baixos que ainda costumo visitar dentro de mim. Quero adotar como princípio pessoal, a assertiva da pintora Frida Khalo: Pés, para que servem? Se tenho asas para voar! Já paguei meus tributos por não realizar os vôos do meu espírito. Como o deus Hermes, tenho asas nos pés.
A crise de fragmentação que atinge a humanidade é resultado da insistência em permanecermos atados às nossas ilusões, aos nossos caprichos, aos nossos quereres (que estão sempre ocultando outros quereres), aos nossos medos e covardias. No livro A Arte de Conhecer a si mesmo, o filósofo Shoppenhauer considera que deveríamos “querer o menos possível e conhecer o mais possível”. Operamos em nós uma perniciosa cisão entre diversos desejos, vontades e, ao invés de nos multiplicarmos, nos fracionamos em pessoas e situações, nos fragmentando sem ampliarmos nossas percepções para a inteireza do nosso ser.
Formidável estudiosa da poítiica, da filosofia, da educação do século XX, Hanna Arendt considerou: “A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada ao homem”. A vida sempre nos impõe o algo a mais do que as condições em que vivemos, os desafios que nos são impostos na vida emocional, na vida material, na convivência com o outro. As "crises do sentido da vida", certos vazios existenciais que nos visitam vez por outra é a existência que começa a requerer um sentido maior (além do puramente material). Judeu como Hanna Arent, um dos maiores gênios da humanidade, o físico Albert Einstein certa vez mencionou a beleza da nossa natureza, afirmando: “Minha condição humana me fascina”. Em um diálogo afim, Leonardo Boff considera: “O ser humano é um projeto infinito” – explicando que “nos recusamos a aceitar a realidade que nos cerca porque somos mais, nos sentimos maiores do que tudo o que nos cerca”. Einstein, Hanna Arendt, Boff: todos enxergaram a imensidão do nosso ser. Recuso-me a exercer a mendicância voluntária a que nos submetemos, com frequência, diante da superficialidade e da artificalidade dos fatos e episódios, quero mais do que catar migalhas das sobras de um quintal pessoal que não preenche a imensidão do meu ser. Como Frida Khalo, tenho asas. E, de cima, a paisagem é um deslumbramento ótico.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Jornalismo para a vida


Na gaveta de meus projetos e sonhos, que contam com a elasticidade desta existência para viabilizá-los, está a crônica Os Jornais, de Rubem Braga, com a frase que alicerça meu ideal futuro: “Os jornais noticiam, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida”.
Há quase uma década, tenho me dedicado, de modo apaixonado, a buscar conexões interdisciplinares, entre áreas do conhecimento que evoquem a sacralidade da vida, em seus mais diferentes aspectos, envolvendo temas como: a dignidade, o acesso aos direitos que legitimam a cidadania, a espiritualidade, a afetividade, a humanidade e afins. Como tantos, optei pelo jornalismo pelas mesmas razões românticas daqueles que acreditavam na função social que a atividade jornalística possuía. Do romantismo universitário passei a viver uma paixão não correspondida, nas primeiras experiências práticas, até momentos de enorme desprazer que a promiscuidade entre o Departamento Comercial e o Departamento Jornalístico das redações e emissoras de rádio e TV adotavam como prática cotidiana. Confesso ainda: a sensação de ter sido a primeira mulher no Estado a ocupar o cargo de Secretária de Comunicação, em um estado como o Maranhão, se assemelhava, muitas vezes, a de quem é estuprada, diariamente, por razões cujos motivos comentarei um dia, de modo mais detalhado.
Fiel ao bom e velho ditado de que “mais vale acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão”, defendo a proposta de que a informação deveria se converter em solução para os problemas sociais. A constatação de que existe uma abordagem reducionista no modelo de jornalismo praticado pela atualidade ratifica a noção de que o modo de informar, quando não caracteriza a notícia como um produto a mais no mercado, transforma-se em moeda política, largamente utilizada em nosso País, para a compra de consciências lesadas pela falta de Educação, Saúde, Saneamento Básico e outros direitos e garantias fundamentais.
A enorme lacuna deixada pela Mídia é consequência da forma limitada de exploração dos fatos, em sua maioria, gerados pela ausência de um Desenvolvimento Humano Integral. Há uma enorme variedade de questões e subtemas ocultos em cada matéria jornalística sobre homicídios, chacinas, surtos de doenças, catástrofes ecológicas e outros, inclusos nos pacotes de problemas da atualidade.
Como educomunicadora, também faço a defesa inarredável de que a forma de noticiar necessita contribuir para a formação de uma consciência em favor da justiça social e da vida, com a conversão necessária de temas da chamada antigamente de Grande Imprensa em debates e possíveis soluções para os problemas da atualidade, que poderiam estar anexadas a cada notícia. Acredito na possibilidade de contribuição, por meio da reflexão e análise do noticiário, para a formação de uma consciência cidadã, solidária, voltada aos direitos humanos, à ecologia social e à vida. Em suma, é possível transformar informações em commodity para elaboração de projetos e soluções aos problemas sociais do País. Ou ainda, conforme a precisão do enunciado do professor Edvaldo Pereira Lima, Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), “um jornalismo de transformação. Que trabalha em prol da transformação individual e coletiva.” Para reforço da minha utopia realizável e de todos aqueles que acreditam que uma outra comunicação é possível, transcrevo suas palavras:

“...advogo para a narrativa jornalística de qualidade uma outra atitude. A postura proativa. O jornalismo aberto a esses novos caminhos em que percebemos a realidade não mais sob uma ótica reduzida, centrada apenas num patamar excludentemente racionalista em excesso. Um jornalismo que não fica à mercê do relato passivo dos acontecimentos, mas que percebe o eclodir de tendências e probabilidades, que acompanha a gestação de visões inovadoras, que sai do lugar comum. Que focaliza uma visão complexa, buscando uma compreensão ampla, ajudando o ser humano a encontrar novos significados, auxiliando-o a ampliar seu grau de consciência de si mesmo, do outro, da existência (...)“

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Cinzel do meu eu


Tenho o hábito atávico de manejar as palavras, cavando traduções absurdamente exatas para o inapreensível que habita em mim. Uma mania de resumir em títulos a verborragia tresloucada, desorganizada que compõe meu tecido íntimo. Ultimamente, ando me desenhando assim: sinto hemorragias de flávias em mim... orgasmos em minhas circunvoluções cerebrais. O momento de fertilidade acentua ainda mais essa busca, que consiste em tarefa semelhante à realizada pelo cinzel, em que estão obrigatoriamente incluídos exercícios sentimentais, questões relacionadas ao revolver de mim mesma, tendo como princípio norteador a certeza da finalidade superior da existência. No entanto, essa certeza é uma ilha cercada de dúvidas, cada vez menos atormentadoras para mim, mas que fortalecem minha musculatura emocional e impulsionam meu caminhar. Com uma nesga psicanalítica, nestas minhas incursões, adoto o que propõe o antropólogo Clifford Geertz: “se você não sabe a resposta, discute a pergunta”.
Aos abstêmios que sofrem do fígado, aos que incluem o mau humor em suas necessidades fisiológicas diárias, essa exposição crua de mim mesma pode parecer repleta de pinceladas de devaneio nascisístico. Com fobia de holofotes, considero tal mania um modo peculiar de me dizer, uma maneira de me encarafunchar - coisas de quem, frequentemente, prefere habitar as próprias cavernas, abrir as gavetas dos porões da alma. Sou uma buscadora, já disse. A busca é, por vezes, dolorosa, outras, deliciosa! Os excessos exteriores não me bastam. Nem a alegria pasteurizada dos macaquinhos amestrados, os sorrisos macdonaldizados, muito menos o açougue do sexo banal da contemporaneidade descartável.
Lá fora, é cada vez mais crescente a imbecilização epidêmica dos empanturrados por uma felicidade fraudulenta indigesta. Há alguns meses, traduzi um episódio pessoal desta forma: ALMA NUA: PROIBIDA PARA MENORES DE ESPÍRITO. A prática desse tipo de nudismo faz bem a mim. Nele, não cabe a deselegância dos que se vestem de trajes variados para cobrir suas vergonhas e seus medos. Prefiro dedicar horas silenciosas às palavras do meu quintal a ter que comprar ingresso para o Baile de Máscaras da atualidade!












segunda-feira, 6 de julho de 2009

Bicho da seda


Costumava subir, diariamente, a Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo, quando certo dia um dos meus amigos mendigos disse: “Onde vai assim tão linda?”. Nossa amizade surgiu da troca de olhares, de certos sorrisos cúmplices entre nós, que transcendiam a linguagem desnecessária dos dias rígidos, subvertendo a pressa paulistana que atropela a paisagem humana. Lembrei de um dos poetas da minha devoção, Manoel de Barros, que cita “parafusos de veludo” e “alicates cremosos”. Repeti o mantra Drummondiano: “uma flor furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”. Essas pequenezas se traduzem no tema que há tempos venho me dedicando a estudar, perceber e vivenciar: o afeto.
Este que é mais um, entre tantos de meus devaneios necessários, nasce de ternuras recentes e de uma saudade que queria ter o poder de se transmutar em texto. Escrevo pensando no olhar sereno de alguém que tem nome de homem e mulher, dono de uma ternura forte e uma virilidade meiga, José de Paula, meu avô Bezerra, de 94 anos. Ouço os risinhos musicais de minhas princesinhas Maria Clara e Luísa Valente, sinto em mim a força do amor-alicerce de Alexandre Botão e Elenice, ambos com suas letrinhas redondas, protetoras, os cuidados e carinhos que a falta da infância não me roubou, de Jane, Graça e Terezinha. Escuto a gargalhada sacana de Fufu, que nunca vou deixar silenciar. E penso naqueles que chegaram para ficar, fizeram-se maiores que o instante miúdo e não foram devorados pelas coisas desagradáveis. Saudades, ternuras sagradas que me unem ao humor de Dadá, ao xamanismo de Carlos Henrique, ao meu Lexotan de lucidez, Alice do País das Mara... cutaias, ao caso de amor de Viviane de Araújo e Carime Jadão com a Vida, que me ensinaram tanto sobre esse tema... e de tantas outros que ainda hão de passear aqui pelas linhas desse blog.
A ternura nos oferece a chance de aprender com a delicadeza dos pequenos gestos, de furtar sorrisos de estranhos, deliciar-se com olhares de seda. O afeto é fogo, diz Gil, como um queimar que desce ladeira abaixo da nossa arrogância burra, como lágrimas que invadem territórios áridos diante das conversa de Caetano, Bethânia e dona Canô, em ‘Pedrinha de Aruanda’ ou de ‘Santiago’, chamando João Moreira Salles de Joãozinho, filmes que amoleceram ainda mais meu coração de geléia. No livro A Onda que se Ergueu do Mar, Ruy Castro registrou uma frase linda de Tom Jobim: “Eu sou um aprendiz de ternuras”. Guevara revolucionou o mundo ao se enternecer com as lepras da América Latina, pedindo que se endurecessem sem perder a ternura jamais. O profeta Gentileza morreu propondo ao mundo a formação de uma consciência gentil. Nesses tempos tortos de violência pandêmica, barbáries em série, de uma modernidade de plástico descartável, quem elege um tema destes para escrever acaba sendo tachado de louco ou pueril, como Gentileza, Gandhi e como Aquele que ousou andar descalço e cabeludo falando de amor em meio a prostitutas e ladrões. Os desavisados não percebem que, diante do caótico quadro de anemia afetiva, a ternura deixa de ser tema de romances açucarados e passa a se converter na única possibilidade de libertação da nossa miséria afetiva. Conforme assinala Rolando Toro, poeta e antropólogo chileno, criador da Biodança:

"Não basta libertar o homem de sua miséria econômica.É necessário também libertá-lo de sua miséria afetiva,de sua pobreza criativa e de sua incapacidadede desfrutar o prazer de viver."




O exercício de bastar-se



Vivi, em 2007, a experiência de fazer meu próprio Caminho de Santiago no Brasil. Dez anos antes, recebia o Prêmio Nobel de Literatura, a escritora Doris Lessing, por quem me deslumbrei ao ler, em entrevista ao Jornal do Brasil: “a solidão é um grande luxo”. Ao sair de uma árdua experiência profissional e pessoal, escolhi o luxuoso prazer de ficar só com meus inúmeros amigos interiores, um alento que admito existir na misantropia voluntária a que, frequentemente me submeto. Drummond, misantropo, tímido e escorpiano, como eu, dizia: “a solidão gera inúmeros companheiros em mim mesmo”.
Escolhi uma cidade que, embora frenética e barulhenta, me fazia há algum tempo ouvir os sons do meu silêncio. Uma metrópole trituradora, moedora, mas que havia me feito, há alguns anos, descobrir a inteireza do meu ser: São Paulo, lugar perfeito para o meu exílio intelectual. Rasguei meu cartão de visitas e fui tentar uma vaga na USP. Aprovada em segundo lugar na seleção de uma pós-graduação na Escola de Comunicações e Artes (ECA), voltei a calçar tênis, usar mochila nas costas e passei a aguardar, resignadamente, durante uma hora ou mais, o trajeto do ônibus que, bravio, atravessava a tempestade de carros de uma cidade, cuja quantidade de automóveis correspondia ao total da população do meu Estado.
O frio e a cinza paulista faziam afagos na minha solidão necessária - uma velha conhecida minha das fases de preguiça social e da infância franzina em que tantas vezes me sentia como uma mistura de Quasímodo e Dom Casmurro. Durante muitos finais de semana, as únicas vozes no apartamento em que vivia eram do rádio e da televisão, que faziam companhia para a voz estridente dos meus pensamentos. Li, compulsivamente, entusiadamente, Shopenhauer para combinar com o momento, alguns clássicos que adiei durante décadas, Foucault e Barthes, com os quais vivi um triângulo amoroso, além do tórrido caso de amor que mantenho até hoje com as descobertas que a USP me proporcionou: Jesús Martin-Barbero, Nestor Cancline, Clifford Geertz, Stuar Hall, Manuel Castells, Jorge Huego e os outros estudiosos da Educomunicação. Cafés, livros, filmes e terapia me bastavam. Como na fórmula barthesiana: “nada de poder, um pouquinho de saber e o máximo possível de sabor”.
Cheguei até a comprar um girassol, batizado por mim de Soledade. Regava e conversava com Soledade que, insistentemente, buscava nutrir-se dos mínimos raios de sol, entre as frestas dos prédios aglomerados diante da minha sacada. Meses se passavam e ela sobrevivia, na incrível instabilidade climática paulistana. No inverno, Soledade não tinha mais forças e morreu. Voltei para São Luís e quase dois anos depois, só agora o sol começa a brilhar. Agora, faço desta a minha homenagem a Soledade, que me ensinou a insistir em viver, mesmo quando aquilo que nos nutre no momento seja insuficiente.

domingo, 5 de julho de 2009

A falência do circo


“A maior parte da dinâmica dos relacionamentos não comporta a verdade”, leio, estarrecida, em meu signo, na seção de horóscopo de O Estado de São Paulo. Mercúrio e Plutão em oposição? Pouco me importa. Divirto-me aqui na platéia e deixo o palco para os exibicionismos daqueles que crêem, firmemente, no triunfo da dissimulação, para os que têm fé na descrença, aos apreciadores de grandes espetáculos com direito a cortina de fumaça na estréia e em todos os atos. Fumaças e escuridão: toda boate tem um fundo de verdade!, canta, com habitual irreverência, Ana Carolina.
Da página de horóscopo (adoro oscilar entre os extremos!) pulo para a reportagem com o escritor argelino Grégoire Bouillier e seu livro sobre o conturbado caso com a artista Sophie Calle, de quem se separou por e-mail, recebendo como resposta diversos vídeos com mensagens que interpretavam o rompimento por meio de performances. Em meio à ruidosa era de discursos eletrônicos, e-mails, torpedos, SMS, twitters, blogs, nada mais atual aos adeptos do estilo fake do que ser virtual e não real! Maria Aparecida Baccega, da Escola Superior de Propaganda e Marketing e livre-docente da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, interpretou, com argúcia, o fenômeno e seu alargamento para o território comportamental: “Palavras tomam lugares em discursos de máscaras. A linguagem então assume o papel de mercadoria. é a sociedade das aparências”.
A fórmula é fácil. Inclui embalar conversas em um papel vistoso (quem sabe não estaria aí a origem da expressão 'papo furado'?), jogar para debaixo do tapete as dores e decepções sem a necessária auto-investigação, substituir sentimentos que exigem crescimento pessoal por emoçõezinhas baratas e converter delicadeza em vulgaridade. Na arena dos discursos de máscaras é mais forte quem sabe mentir. E na lógica perversa dos marqueteiros da felicidade modelo revista Caras (e de seus bilhetes de viagens, fotos que tentam estancar o tempo e lua-de-mel com vista para o mar) amar é um ato de ingenuidade.
A série de vídeos que traduziram a mensagem de rompimento de Bouillier a Sophie Calle foi exibida na Bienal de Veneza de 2007. Entre performers, atrizes e bailarinas, havia uma palhaça. Do lado de fora do enquadramento do vídeo, o circo faliu. A palhaça, sem mais função, resolveu aprender a ser trapezista.

sábado, 27 de junho de 2009

Fio de Ariadne



Ainda sob efeito de uma pressão que resolveu brincar de alpinista, aproveito as tonturas físicas para elaborações existenciais em torno das sucessivas voltas que damos em torno das velhas e recorrentes questões subjetivas. Tratar destas questiúnculas, em meio à enxurrada de informações de maior relevo para os que cultuam o exterior, é uma maneira solitária de descer um degrau a mais nos porões da minha alma. Desprovida do talento de uma sábia milenar, com quem troco textos e dicas literários, ouso navegar calmamente no meio da imensidão de um oceano revolto de palavras.
Em minha farmácia de frases, absorvo em doses homeopáticas a afirmação do orador e político grego Demóstenes (384 a 322 a.c.): “é extremamente fácil enganar a si mesmo, pois geralmente o homem acredita naquilo que deseja”. Os que padecem de profundas ulcerações emocionais, inquietações atávicas, intensidades dos quereres, das buscas desenfreadas e de outras enfermidades do gênero, desconhecem o quanto é fácil enganar a si mesmo. A sinuosidade da alma feminina, dada a teceduras sentimentais, é presa fácil das alegorias que se travestem de pequenas alegrias, das miragens em sofisticadas roupagens, dos simulacros de visibilidade estéril. As lacunas que surgem no decorrer da caminhada vão revestindo e despindo as procuras, oscilando ora em encontros, ora em desencontros. Movida pela frequente busca renovadora, pela resignificação transformadora, adoto a formulação lacaniana de que o desejo é sempre o desejo de um outro desejo.
O conflito entre o ardor interior de quem se alimenta de buscas frenéticas e a mania feminina de confeccionar sentimentalidades é assunto para muitas horas de divã. No entanto, reflexiono em torno da quase em extinção característica das tecelãs que ainda acreditam na possibilidade de realização da grandeza de um projeto afetivo. Muitas usaram do recurso ao qual me refiro. Sherazade, arquétipo da estranha relação entre amor e morte, desenrola seu novelo de histórias para o Sultão, escapa de ser decapitada e vive sob a proteção de uma sedução que dura mil e uma noites. Penélope, para aguardar Ulisses (ou Odisseu) que guerreava em altos mares utilizou um artifício parecido. Para não desagradar o pai, que sugeriu que ela se casasse novamente, resolveu aceitar a corte dos pretendentes com uma condição: casaria somente após terminar de tecer uma colcha. Trabalhava de dia e desfazia a costura de noite para que as vestes nunca ficassem prontas. Ulisses regressou à sua Ítaca natal 20 anos mais tarde.
O mito de Ariadne, porém, é o mais intrigante de todos. Uma metáfora geralmente usada para descrever a solução de um problema. Filha do rei Minos, se apaixona por Teseu, pede a Dédalo, arquiteto do palácio onde viva o Minotauro a
planta do local. Após conhecer o lugar, dá um novelo a Teseu, recomendando que o desenrolasse a medida que ele entrasse no labirinto para encontrar a saída. Teseu usou essa estratégia: matou o Minotauro e, com a ajuda do fio de Ariadne, encontrou o caminho de volta. Retornando a Atenas levou consigo a princesa. Mas, depois de uma noite de amor, deixou-a na ilha de Naxos e ela nunca mais viu Teseu. Belíssimo roteiro de drama e lição para quem, ao desenovelar ou dedicar tempo precioso à arte de tecer, surpreende-se com o final.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Delírios e delícias de palavrar




No curso Diálogos entre o texto jornalístico e o texto literário, promovido no início de junho passado, em São Paulo, no Espaço Cult, o jornalista Xico Sá aconselhou a uma comportada platéia a acrescentar uma dose de passionalidade em seus escritos: “paixão e um pouco de delírio também”, receitou. Delírio? Para os obsessivos pelo culto às palavras é quase uma impossibilidade a tentativa vã drummondiana de manter-se uma relação sã e superficial com aquelas que nos desenham a existência ao redor.
O poeta Pessoa, que assumia seu gosto em palavrar, mencionou as propriedades terapêuticas da escrita, quando registrou: “se escrevo o que sinto é porque assim diminuo em mim a febre de sentir”. O Livro do Desassossego não poderia ter efeito mais devastador em mim, na época em que o li. Nele encontrei os sintomas tão frequentes desde a infância, resultantes da sinuosidade da minha alma frenética, inquieta, ardida, repleta de formigas no espírito. Anos atrás, li em o Jornal do Brasil uma entrevista com a escritora Nélida Piñon, que admitia: “escrevo para o meu desassossego”. Palavra que acalma e alarma. Como seria se os médicos fossem viciados em formol? "Somos uns doentes", pensei. O poeta Mário Quintana chegou a confessar que sua poesia sofria de “uma inquietação terrível”, segundo ele, como a música de Mahler.
Por uma transcendência poética que impregna o ofício de quem escreve, confesso-me atormentada pela delirante aventura de escrever, de prestar atenção no mistério que reside escondido entre uma palavra e outra, no silêncio de tantas palavras, na eloquência de algumas e na tagarelice dos termos desnecessários. De quantos delírios noturnos não sofri, ao espremer pequenas expressões cotidianas na inútil tentativa significativa? Quantas vezes não descobri longos discursos ocultados em uma única palavra?!... E quão frustrante não foram os momentos em que percebi o esvaziamento das emoções mais nobres em certas frases banalizadas por palavras dissimuladas que roubam de si mesmas toda a riqueza semântica. Cheguei a escrever a alguém: o que resta de nós agora é a nobreza do silêncio.
A intimidade com as palavras costuma fornecer uma fina ironia, nos moldes machadianos dada a poucos com sua porção de refinamento essencial. Mais cômica do que irônica, cínica talvez, fiz certa vez, ainda estudante do curso de Comunicação Social, em meio a aula de Semiologia, um poeminha gaiato: “palavra com palavra, letrinha e letrinha, farei o dicionário do nosso amor analfabeto”. Um caldo feito das sobras de Barthes e Saussure. E, embora, todas as delícias do delírio de palavrar, não me iludo e repito o salmo de Drummond: “Lutar com palavras é a luta mais vã”. Sugiro um download da música Tantas Palavras, de Chico Buarque: ”...Trocamos confissões no cinema, dublando as paixões, movendo as bocas, com palavras roucas, fora de si...”



GráVIDA de mim


Um cheiro forte de mato exala da minha alma de água, agora em forma de cachoeira. Basta um abraço no céu e a vida entra pela boca. A poesia se derrama pelo chão de flores, onde descalços os meus amores vão passar. Eles chegam, carregados pelo tempo, disfarçados de acaso e lambuzados de mel.
O sábio Arquiteto do Universo fez borboletas multicores, o formato caudaloso dos rios, temperou a água do mar com o sal da terra, forrou o teto do mundo de azul e branco, tilintou o céu de estrelas brilhantes, incandescentes e preparou o cenário para nos contar como é fascinante o espetáculo da vida. O mago das palavras, Guimarães Rosa, ensinou que o mundo é mágico e as pessoas não morrem, ficam encantadas. Rubem Alves, mestre da crônica existencial, não conseguiu conter o êxtase diante daquilo sobre o que me atrevo a escrever e proclamou: “Deus tem que existir. Tem beleza demais no Universo”. Osho também segredou sobre a intenção divina de colocar cores no mundo, como forma de nos mostrar que se quisesse tristeza por aqui faria a nossa morada da cor cinza. Diante da generosidade da vida, o antropólogo chileno, poeta e criador da Biodança, Rolando Toro, propõe “viver abundantemente”. Gonzaguinha, que se despediu, precocemente, desta para a outra dimensão, devia desconfiar que tinha pouco tempo por aqui e compôs uma declaração de amor à existência: “Há quem fale que é um divino mistério profundo, é o sopro do criador, numa atitude repleta de amor”. E convoca à revolução de “viver e não ter a vergonha de ser feliz”. Maravilhado, com o que chamou de Maravida, o filho de Gonzagão exclama: “...Quero meu peito repleto de tudo o que eu possa abraçar.” Abraços quentes, risinhos incontidos, ternuras múltiplas, os suaves prazeres do cotidiano e a matéria-prima fundamental da existência: gente.
Como Cazuza, em Blues da Piedade, vamos pedir piedade aos ressentidos, aos inchados de mágoa, aos que inflamam suas veias de ira e grosseria, aos que não se rendem à delicadeza do afeto, aos que foram convidados para a ceia do Senhor, mas perderam a chance de saborear a existência. Delícia é viver.