sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Diário de Bordo n. 41




A metáfora da existência como um trem é das minhas preferidas. Além do romantismo imagético de um meio de transporte dos mais antigos, possui força poética semelhante a um bom filme ou um livro. A música Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant, é a mais próxima referência ao meu alcance agora: “A hora do encontro é também despedida” ou “...tem gente que chega para ficar, tem gente que vai para nunca mais”.

Nesse vai e vem, de chegadas a partidas, sou dona de um patrimônio precioso, daqueles que só depois de acumularmos alguns anos bem vividos podemos nos ufanar de possuir: amigos com quase 20 anos de convivência, outros com 15 anos de amizade, amores que se transmutaram em amizades sagradas e alguns remanescentes da infância que, tardiamente (e sob protestos!), já começa a se distanciar no espelho retrovisor. O melhor desta viagem é a paisagem humana que surge no trajeto, desenhando novos e recorrentes significados dentro de mim. A riquíssima experiência de viver possibilita, além dos aprendizados necessários à viagem, o degustar de sabores, o conhecer de lugares e a possibilidade de nascer novamente todos os dias, sob as bênçãos do sol da manhã neste hemisfério do planeta.
O ritual de passagem proporcionado pelos aniversários nos oferece reflexões desta natureza. Na cabine do trem onde viajo já passou uma diversidade fantástica de pessoas, algumas permanecem respirando forte em minha memória, outras repousando em álbuns de fotografias e há ainda as maravilhosas descobertas de 2009, umas como páginas que não foram lidas, capítulos inteiros desperdiçados, quem sabe, talvez numa próxima parada. Uns continuam a viagem ao meu lado, outros se perderam na estação. Necessária se faz a intromissão da inevitável pergunta que intriga a humanidade: para que, afinal, estamos todos neste trem que viaja? A mim me bastam minhas próprias convicções pessoais como respostas: converter a existência em uma experiência edificante. Trabalhar, amar, emocionar-se e viver abundantemente como ensinou o antropólogo chileno.  Sangue, suor e lágrimas nos redimem da imbecilização coletiva. Cabe repetir o poeta Leminski: “Essa vida é uma viagem. Pena eu estar só de passagem”.





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