segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O “novo” Óleo de Peroba nas Eleições de São Luís


Em meio a um engarrafamento de uma São Luís estacionada, um adesivo colado no pára-choques do carro dianteiro, exibe a frase: Castelo de novo! Numa época em que a Galáxia de Gutemberg tornou-se apenas uma expressão romântica, na era dos bilhões de acessos instantâneos, da profusão ininterrupta de informações, quando o último post começa a caducar em poucos segundos, o que seria mesmo o “novo”? O apogeu da Sociedade em Rede, das tendências do mundo hype, dos impactos da Modernidade Líquida traz a nítida impressão de que não existe mais nada de “novo” na Hiperconectividade Global.
A palavra “novo”, aliás, de tão surrada, parece não surpreender nem o mais brilhante texto publicitário. O slogan castelista chama tanta atenção quanto o “Novo Sabão OMO” e, ao contrário de seus sinônimos (“recente”, “jovem” e “moderno”) remete justamente à ideia de enfadonho. A sabedoria popular define com precisão o mal estar impregnado no termo: “De novo, toda hora!”.  
O apelo ultrapassado cai bem em uma eleição de castelos e palácios que remontam à idade medieval ou de candidatos que já foram tão socialistas quanto a capital dos Estados Unidos, Washington. Os marqueteiros ávidos por transformar sapos em príncipes, castelos e palácios em modernos duplex com vista para o mar, Holandas em Anjos da Guardas enfrentarão o desafio de filmar Fidel Castro fazendo propaganda do Mc Donald’s.
A crise do “novo” no marketing eleitoral nas eleições de São Luís se estende para as alianças e composições das chapas. O “novo” para balancear a candidatura de Castelo seria um Neto, o Evangelista, herdeiro político do pai e da coincidência de origem do seu nome, Evangelho, do grego Evangelion, que significa “boa nova”. Em contraponto, o “novo” Edvaldo Holanda Júnior, que também sucede o genitor na militância, carrega o fardo de um Roberto Racha, digo, Rocha, versão remixada de um velho pagode político.
Enquanto os carros de som esgoelam jingles plagiados, sob encomenda, a inchada ilha de São Luís sofre com a diarréia da festa de seus 400 anos, despejando fezes nas baías e vomitando carros, destinada a se reduzir a um Beco da Bosta, sem planejamento urbano e iniciativas criativas.

Infelizmente, ainda não inventaram um S.A.C. (Serviço de Atendimento ao Consumidor) para os neófitos no Marketing Político que, esquecendo do fator humano, traçam suas estratégias como se estivessem fazendo propaganda do “Novo” Sabão Omo ou do popularmente conhecido Óleo de Peroba.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Oração Matinal

quinta-feira, 12 de julho de 2012

No princípio sempre foi o verbo




Faz quase um ano. Recebi um apelo delicado que, aos meus ouvidos corrompidos pelo bafo da maledicência mundana, soou como uma severa advertência. Veio em forma de quase segredo, ditado por uma das minhas maiores referências na condição humana, José Bezerra, meu avô, que no vigor de seus 97 anos, me disse: “Quero lhe fazer um pedido. Não largue a pena!”. Seu Bezerra, em frase machadiana, me pedia para não parar de escrever.

Aos desavisados, a petição parecia equivocada a quem escolheu o heróico e mal pago ofício da escrita que esgrima injustiças sociais, da palavra que fornece voz à realidade da pobreza muda, enfim, de quem optou por aquela que um dia já foi a romântica profissão de jornalista. Embora os últimos anos tenham sido de muitas desilusões amorosas diante daquilo que a jornalista Marilene Felinto chama de “blefe” e “jogo de cartas marcadas”, que é o jornalismo contemporâneo, não havia como ser infiel a toda uma existência rabiscada pela escrita.

Os livros didáticos de papai e mamãe (ambos professores. e de Língua Portuguesa!) ainda estão na estante deles, pichados com meus desenhos e letras infantis, feitos às escondidas, surpreendendo meus pais durante as aulas. Os poemas escritos por mim para o Dia das Mães, aos 7 anos, com rimas insípidas “Teus cabelos cor de ouro, teus olhos cor do mar, de tanto eu te amar” - também denunciavam o destino traçado para a devoção à escrita. Aos 11 anos, meus cadernos do Colégio Batista eram preenchidos por frases de temas que em nada dialogavam com as disciplinas ministradas em sala de aula. As colegas mais velhas, alunas do meu pai, estranhavam a minha excentricidade, relatada em textos como: “Vermes passeiam em minhas circunvoluções cerebrais”.

Quando fiz o Teste Psicotécnico do Detran, aos 18 anos, resolveram pedir uma redação com o tema Quem Sou Eu. Não deu outra: todos foram liberados, após alguns minutos, mas o psicólogo pediu que ficasse apenas eu para conversar com ele. Nenhum distúrbio psíquico. Apenas a minha afeição pelas palavras, no auge da empolgação juvenil, impulsionando-me a escrever um pouco mais do que os outros e provocando a curiosidade do profissional.

Nostalgias à parte, com a necessária redução da taxa de glicose neste post, eis me aqui, escrevendo. A produção espontânea, não remunerada, escrita para mim mesma ao longo dos anos e agora exibida sem pudor literário na possibilidade de um Blog, escasseia em alguns períodos, mas jamais cessa.

Clarice Lispector dizia que “escrever implicar em desnudar-se”, um exercício de autoconhecimento, um derramar dos vestígios si mesmo no confessionário sagrado de cada texto.

A escrita nasce impregnada daquilo que se absorve com os olhos, com o nariz, com os ouvidos, ferramentas do invólucro carnal que se conectam à alma escrevente. Escreve-se com a matéria-prima do viver cotidiano, com a substância extraída de livros, filmes, músicas, conversas, pessoas e dos episódios. Escrever é um necessário hábito solitário. Já devo ter perdido bons textos em muitos momentos de absoluta imbecilidade social, de frivolidades festivas.

Escrever é vital porque, conforme um dos poetas da minha devoção, Carlos Drummond de Andrade, “vivemos entre palavras e palavras somos”. 


Obrigada, meu amado vovô Bezerra, talvez eu jamais consiga conter essa multidão de palavras dentro de mim, pedindo para sair. Que assim seja!



domingo, 8 de julho de 2012

Post it!


A MINHA FELICIDADE

Depois de estar cansado de procurar
Aprendi a encontrar.
Depois de um vento me ter feito frente
Navego com todos os ventos.


(Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência)


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Linhas do Destinatário

quarta-feira, 27 de junho de 2012

AutobioFlavia



Esse meu gosto por opostos
essa mania de contrastes.
Não, nunca me contrate
jamais aposte.
Em mim, é pura sorte.
O contraditório desfila no meu auditório.
tímida e míope
melan - cólica e lírica
insuportavelmente feliz
sempre por um triz
doce e travosa
amarga e gostosa
urtiga de seda
amante das palavras
livros e livre
café e paixão
sal e lama
inocente e indecente
universo denso, com incenso
formigas no espírito
água por natureza
alma de mochileira
misantropa, ma non troppo
ermitã e tantã.
sempre na contramão
matéria-prima de amorosidades suaves
o eco das risadas de Maria Clara e Luísa Valente

E Isabella, o mais novo raio de sol na janela
o olhar singelo do avô da minha vida
a última Flor do Lácio que papai me deu
a lã protetora da minha mãe Dolly em meu espírito sem abrigo

as saudades e maldades do coração ladrão
Mon Chouz, you, usted que nunca esteve e agora sempre, sente.
os vinhos filosóficos, a dança dos encontros...
a Vida, generosa, escandalosa
e tanto faz, tanto mais...
Como Pessoa: “Seja eu leitura variada para mim mesmo”

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Tela de Karina Albuquerque


As pinceladas suaves, com leve toque erótico, resultam do talento de Karina Albuquerque, uma jovem de 25 anos, representante da nova geração de artistas plásticos maranhenses. Auto-didata, ela jamais frequentou escolas de belas artes, pintando como se escutasse a voz de sua intuição. 


A tela reproduz o descanso feminino, pós-gozo, que na acepção dos franceses remete ao significado de "quase morte".


Anônimas, exaustas e próximas da morte, nós mulheres alcançamos a utópica paz para nossas angústias e inquietações. São nestes efêmeros segundos que iludimos a ideia de saciedade de nossos intermináveis desejos, personificados no corpo labirintíco, oferecendo uma meia-resposta, em susurro, à clássica pergunta freudiana: "o que quer uma mulher?". 

Quem souber, morre, por alguns minutos.