terça-feira, 3 de março de 2015

O inferno paradisíaco



“Entra com teu céu em meus olhos” é um dos versos mais delicadamente arrebatadores do poeta chileno Pablo Neruda. 

A forte carga simbólica do céu - e suas concepções de paraíso e imensidão - se mistura ao incandescente fogo tão familiar ao reduto dos pervertidos pela emoção e dos atormentados pelo sentimento que move o mundo. Para alívio dos aflitos, o inferno já foi até absolvido pelo Papa Francisco.

A genialidade do poeta está em traduzir com poesia o que acontece, naqueles momentos mágicos, nos estreitos orifícios pelos quais a vida é apreciada: os olhos. Nos limites da visão, o céu é alcançado em toda a sua graça. O olhar, essa janela da existência, alimenta a alma e nutre o coração. “O que os olhos não veem, coração não sente”, diz o adágio popular.

Neruda pede. Os melhores pedidos, como conhecem os amantes, precisam recorrer ao recurso insubstituível da sedução para serem atendidos. O olho que vê quer mais. Quer ser visitado pelo deslumbramento celestial, descrito no poema. Devem ser olhos aflitos, afoitos, pois têm fome. Olhares molhados de ternura saciam sedes. E balsamizam o calor do sentir.  

Mas não é o crente que pretende ingressar nos degraus superiores onde habitam anjos e serafins. É o descrente pelas dúvidas, o endemoniado pelo desejo que quer ser invadido pela imensidão paradisíaca e pede: “entra com teu céu em meus olhos”.  

O triunfal ingresso do céu nos olhos celebra a simbiose entre céu e inferno. As delícias do sentir são feitas disto, do Hades e do Paraíso, que se juntam e se buscam, freneticamente. Condenados ou perdoados pela vida eterna. Amem!

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