domingo, 30 de setembro de 2012

Poema de 7 fases


Tenho fases
Sou de Lua
Guardo frases
Em certas páginas
 Notas de rodapé
Afora os aforismos, guardo excessivos lirismos.
Acordes musicais
De Martinho da Vila a Mia Couto
Um mundo pra mim é pouco.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

TV Escrita

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Um outro reinado


Abomino proselitismos religiosos. Mas a figura de Jesus Cristo, doce e repleta de magnetismo, sempre me intrigou. As metáforas divulgadas, ao longo de mais de dois mil anos, a poesia que desabrocha, visualmente e textualmente, em diversos episódios de sua breve passagem pela Terra são fascinantes.

O Novo Testamento parece escrito por um brilhante roteirista, com a inserção, inclusive, de efeitos especiais. A cena de Jesus caminhando sobre as águas é uma das mais poéticas de todo a narrativa bíblica. Uma imagem que transmite a fluidez e a leveza tão essenciais aos nossos anos de encarceramento no corpo carnal. As frequentes transmutações pelas quais precisamos operar em  nossos enfrentamentos diários, a água em vinho, pedras em pães, a possibilidade de nos libertamos da nossa cegueira voluntária e tantas outras mensagens sob o manto do simbolismo.
De todos os ensinamentos do Cristo, um dos meus preferidos é aquele que teria sido relatado por Marcos: “Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”. Em uma assertiva que reforça o mesmo conceito ele responde à irônica pergunta de Pilatos sobre se era o rei dos judeus: “Meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, a minha gente houvera combatido para impedir que eu caísse nas mãos dos judeus; mas, o meu reino ainda não é aqui”.
O nosso reinado mundano é transitório, perecível e com uma data de validade que não conhecemos. O mestre propõe o aviltamento das coisas que, equivocamente, valorizamos em demasia durante a breve passagem pela Terra. Ele nos sugere retirar os excessos da bagagem para que a subida seja mais leve, para que o Caminho Sagrado, que resume a jornada existencial, seja percorrido de modo mais fácil.  

Penso nas nossas mais íntimas obsessões, cultivadas e alimentadas por nós, como se fôssemos viver para sempre ou como se determinados momentos não fossem evaporar-se com o passar dos dias, meses e anos, eternizando-se apenas em nossa memória. Há os que amontoam fortunas, assemelhand0-se aos portadores de transtornos obsessivos que guardam entulhos em casa. Os que ganham o mundo e perdem a ternura vital, asfixiando-se de si memos. E os compulsivos por determinos temas, pessoas ou manias. Jamais conseguiriam "andar" sobre as águas do mar.

Jesus reafirma a ideia de um reinado diferente, na outra dimensão, com outro ensinamento: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”

Eis a explícita lição do desapego e da impermanência daquilo que é desnecessário. Quando a inexorável senhora Morte chega, sem hora marcada, joga fora nossos "tesouros", transformando "grandezas" em insignificâncias. 

Os que ardem na fogueira das vaidades são equivocados. Eles esquecem que a festa acaba, às vezes quando menos esperamos. Talvez eu já tenha vivido mais do que a metade dos anos que me foram concedidos aqui nesta dimensão. O suficiente para optar por ser exatamente assim: uma mochileira da existência. Nos embates contra os arrogantes, meu ideal sempre esteve mais próximo da poesia da Mário Quintana; "...ele passarão e eu passarinho"

Nunca almejei a riqueza, o luxo ou ser uma celebridade. Nem luxo, nem lixo, conforme a receita da titia Rita Lee. E fiel ao preceito barthesiano, dos meus preferidos: “Nada de poder, um pouquinho de saber e o máximo possível de sabor”

Pretendo acumular cada vez menos excessos na bagagem, ao som do velho Tim Maia: “não quero dinheiro, quero amor sincero”

domingo, 9 de setembro de 2012

Pé de Jazz

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O “novo” Óleo de Peroba nas Eleições de São Luís


Em meio a um engarrafamento de uma São Luís estacionada, um adesivo colado no pára-choques do carro dianteiro, exibe a frase: Castelo de novo! Numa época em que a Galáxia de Gutemberg tornou-se apenas uma expressão romântica, na era dos bilhões de acessos instantâneos, da profusão ininterrupta de informações, quando o último post começa a caducar em poucos segundos, o que seria mesmo o “novo”? O apogeu da Sociedade em Rede, das tendências do mundo hype, dos impactos da Modernidade Líquida traz a nítida impressão de que não existe mais nada de “novo” na Hiperconectividade Global.
A palavra “novo”, aliás, de tão surrada, parece não surpreender nem o mais brilhante texto publicitário. O slogan castelista chama tanta atenção quanto o “Novo Sabão OMO” e, ao contrário de seus sinônimos (“recente”, “jovem” e “moderno”) remete justamente à ideia de enfadonho. A sabedoria popular define com precisão o mal estar impregnado no termo: “De novo, toda hora!”.  
O apelo ultrapassado cai bem em uma eleição de castelos e palácios que remontam à idade medieval ou de candidatos que já foram tão socialistas quanto a capital dos Estados Unidos, Washington. Os marqueteiros ávidos por transformar sapos em príncipes, castelos e palácios em modernos duplex com vista para o mar, Holandas em Anjos da Guardas enfrentarão o desafio de filmar Fidel Castro fazendo propaganda do Mc Donald’s.
A crise do “novo” no marketing eleitoral nas eleições de São Luís se estende para as alianças e composições das chapas. O “novo” para balancear a candidatura de Castelo seria um Neto, o Evangelista, herdeiro político do pai e da coincidência de origem do seu nome, Evangelho, do grego Evangelion, que significa “boa nova”. Em contraponto, o “novo” Edvaldo Holanda Júnior, que também sucede o genitor na militância, carrega o fardo de um Roberto Racha, digo, Rocha, versão remixada de um velho pagode político.
Enquanto os carros de som esgoelam jingles plagiados, sob encomenda, a inchada ilha de São Luís sofre com a diarréia da festa de seus 400 anos, despejando fezes nas baías e vomitando carros, destinada a se reduzir a um Beco da Bosta, sem planejamento urbano e iniciativas criativas.

Infelizmente, ainda não inventaram um S.A.C. (Serviço de Atendimento ao Consumidor) para os neófitos no Marketing Político que, esquecendo do fator humano, traçam suas estratégias como se estivessem fazendo propaganda do “Novo” Sabão Omo ou do popularmente conhecido Óleo de Peroba.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Oração Matinal

quinta-feira, 12 de julho de 2012

No princípio sempre foi o verbo




Faz quase um ano. Recebi um apelo delicado que, aos meus ouvidos corrompidos pelo bafo da maledicência mundana, soou como uma severa advertência. Veio em forma de quase segredo, ditado por uma das minhas maiores referências na condição humana, José Bezerra, meu avô, que no vigor de seus 97 anos, me disse: “Quero lhe fazer um pedido. Não largue a pena!”. Seu Bezerra, em frase machadiana, me pedia para não parar de escrever.

Aos desavisados, a petição parecia equivocada a quem escolheu o heróico e mal pago ofício da escrita que esgrima injustiças sociais, da palavra que fornece voz à realidade da pobreza muda, enfim, de quem optou por aquela que um dia já foi a romântica profissão de jornalista. Embora os últimos anos tenham sido de muitas desilusões amorosas diante daquilo que a jornalista Marilene Felinto chama de “blefe” e “jogo de cartas marcadas”, que é o jornalismo contemporâneo, não havia como ser infiel a toda uma existência rabiscada pela escrita.

Os livros didáticos de papai e mamãe (ambos professores. e de Língua Portuguesa!) ainda estão na estante deles, pichados com meus desenhos e letras infantis, feitos às escondidas, surpreendendo meus pais durante as aulas. Os poemas escritos por mim para o Dia das Mães, aos 7 anos, com rimas insípidas “Teus cabelos cor de ouro, teus olhos cor do mar, de tanto eu te amar” - também denunciavam o destino traçado para a devoção à escrita. Aos 11 anos, meus cadernos do Colégio Batista eram preenchidos por frases de temas que em nada dialogavam com as disciplinas ministradas em sala de aula. As colegas mais velhas, alunas do meu pai, estranhavam a minha excentricidade, relatada em textos como: “Vermes passeiam em minhas circunvoluções cerebrais”.

Quando fiz o Teste Psicotécnico do Detran, aos 18 anos, resolveram pedir uma redação com o tema Quem Sou Eu. Não deu outra: todos foram liberados, após alguns minutos, mas o psicólogo pediu que ficasse apenas eu para conversar com ele. Nenhum distúrbio psíquico. Apenas a minha afeição pelas palavras, no auge da empolgação juvenil, impulsionando-me a escrever um pouco mais do que os outros e provocando a curiosidade do profissional.

Nostalgias à parte, com a necessária redução da taxa de glicose neste post, eis me aqui, escrevendo. A produção espontânea, não remunerada, escrita para mim mesma ao longo dos anos e agora exibida sem pudor literário na possibilidade de um Blog, escasseia em alguns períodos, mas jamais cessa.

Clarice Lispector dizia que “escrever implicar em desnudar-se”, um exercício de autoconhecimento, um derramar dos vestígios si mesmo no confessionário sagrado de cada texto.

A escrita nasce impregnada daquilo que se absorve com os olhos, com o nariz, com os ouvidos, ferramentas do invólucro carnal que se conectam à alma escrevente. Escreve-se com a matéria-prima do viver cotidiano, com a substância extraída de livros, filmes, músicas, conversas, pessoas e dos episódios. Escrever é um necessário hábito solitário. Já devo ter perdido bons textos em muitos momentos de absoluta imbecilidade social, de frivolidades festivas.

Escrever é vital porque, conforme um dos poetas da minha devoção, Carlos Drummond de Andrade, “vivemos entre palavras e palavras somos”. 


Obrigada, meu amado vovô Bezerra, talvez eu jamais consiga conter essa multidão de palavras dentro de mim, pedindo para sair. Que assim seja!