terça-feira, 6 de novembro de 2012

A base biológica da espiritualidade


Assinalamos anteriormente, nestas páginas, que o espírito representa a dimensão do profundo humano. Espiritualidade que dele se deriva é um modo de ser, uma atitude fundamental, vivida na cotidianidade da existência: na arrumação da casa, no trabalho na fábrica, dirigindo o carro, conversando com amigos. De repente, irrompe como que um lampejo de algo mais profundo e inexplicável. É o espírito que se anuncia. As pessoas podem conscientemente se fazer abertas para o profundo e para o espiritual. Então se tornam mais centradas, serenas e irradiadoras  de paz. Propagam estranha vitalidade e entusiasmo porque têm Deus dentro de si.  Este Deus  interior é amor, o qual nas palavras de Dante, no final de cada livro da Divina comédia, “move os céus e as estrelas”,  — e nós acrescentamos: e nossos próprios corações.
Esta profundidade espiritual, dizem pesquisas científicas, tem uma base biológica. Realizadas do final do século 20 e conduzidas pelos neuropsicólogos MichaelPersinger e Ramachandran, pelo neurologista Wolf Singer e pelo neurolinguista Terrence Deacon, outrossim por técnicos usando scanners modernos para fazer imagens cerebrais, detectaram o que eles chamaram de “o ponto de Deus no cérebro” (God spot ou God module).
Pessoas que em suas vidas deram espaço significativo ao profundo, ao espiritual, revelam nos lóbulos frontais do cérebro uma excitação detectável acima do normal.  Estes lóbulos são ligados ao sistema límbico, o centro das emoções e valores. Aí se dá uma concentração naquilo que tais cientistas chamaram de “mente mística” (mystical mind).  Tal estimulação do “ponto de Deus” não está ligada a uma ideia ou a algum pensamento objetivo. Ele é ativado sempre e quando a pessoa se sente emotivamente envolvida com os contextos globais que conferem sentido à vida ou quando, de forma autoimplicada, se referem ao Sagrado, a temas religiosos ou diretamente a Deus. Trata-se de emoções e não de ideações, de fatores ligados a experiências de grande sentido que implicam um percepção do Todo e de algo incondicional.
Estudos mais recentes apontam que pode haver de fato não apenas uma mas  múltiplas regiões do cérebro estimuladas pela experiência de totalidade  e de sacralidade. Isso indica que o “ponto de Deus” pode ser, na verdade, uma “rede de Deus” compreendendo regiões normalmente associadas a emoções profundas e carregadas de significação.  Outros pesquisadores como Eugene D’Aquili e Andrew Newberg chamaram a esta realidade, como temos referido acima, a  ”mente mística”.
Esta mente mística pertence ao processo mais geral,  antropogênico-cosmogênico. Ela representa uma vantagem evolutiva da espécie homo. Como externamente somos dotado de sentidos pelos quais apreendemos a realidade através do ouvido, do olho, do tato e do olfato, assim seríamos internamente enriquecidos com um órgão pelo qual captamos o Mistério do Mundo, o que nos faz sensíveis àquela Energia poderosa e amorosa que perpassa de ponta a ponta todo o Universo e que subjaz à nossa existência. As tradições religiosas a chamaram de Deus.
Se ela está em nós  e nós somos parte do Universo, significa então que esta inteligência espiritual constitui uma propriedade do próprio Universo. Só porque está no Universo pôde estar em nós.  É por esta razão que a filósofa e física quântica Danah Zohar e o psiquiatra Ian Marshall afirmam que o ser humano não é apenas dotado de inteligência intelectual e emocional, mas também de inteligência espiritual. Esta é um dado de realidade com o mesmo direito de cidadania que a libido, a autoafirmação, a inteligência e o amor (QS: inteligência espiritual – Record, 2000).
Hoje faz-se urgente, mais que antes, dar realce à inteligência espiritual. Porque vivemos numa cultura entorpecida pelo materialismo e pelo consumismo induzido. O efeito deste modo de ser é bem relatado pela literatura contemporânea: sentimentos de náusea (Sartre), de estar-de-sobra (Marcel), de alienação (Marx), de “derelição-abandono”(Heidegger), de estrangeiros na própria pátria (Camus). Numa palavra, padecemos de graves doenças de sentido como denunciaram os psicanalistas Rollo May e Victor Frankl. Tudo isso porque embotamos a inteligência espiritual.
A espiritualidade nos ajuda a sair desta cultura doentia e agonizante. A integração da inteligência espiritual com as outras formas de inteligência — intelectual e emocional — nos abre para uma comunhão amorosa com todas as coisas e para uma atitude de respeito e de reverência face a todos os seres, muito mais ancestrais do que nós.  Só assim, poderemos nos reintegrar no Todo, sentirmo-nos parte da comunidade de vida e acolhidos como companheiros na grande aventura cósmica e planetária.
* Texto escrito por Leonardo Boff, escritor, teólogo e filósofo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

DOCE NOVEMBRO

domingo, 30 de setembro de 2012

Poema de 7 fases


Tenho fases
Sou de Lua
Guardo frases
Em certas páginas
 Notas de rodapé
Afora os aforismos, guardo excessivos lirismos.
Acordes musicais
De Martinho da Vila a Mia Couto
Um mundo pra mim é pouco.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

TV Escrita

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Um outro reinado


Abomino proselitismos religiosos. Mas a figura de Jesus Cristo, doce e repleta de magnetismo, sempre me intrigou. As metáforas divulgadas, ao longo de mais de dois mil anos, a poesia que desabrocha, visualmente e textualmente, em diversos episódios de sua breve passagem pela Terra são fascinantes.

O Novo Testamento parece escrito por um brilhante roteirista, com a inserção, inclusive, de efeitos especiais. A cena de Jesus caminhando sobre as águas é uma das mais poéticas de todo a narrativa bíblica. Uma imagem que transmite a fluidez e a leveza tão essenciais aos nossos anos de encarceramento no corpo carnal. As frequentes transmutações pelas quais precisamos operar em  nossos enfrentamentos diários, a água em vinho, pedras em pães, a possibilidade de nos libertamos da nossa cegueira voluntária e tantas outras mensagens sob o manto do simbolismo.
De todos os ensinamentos do Cristo, um dos meus preferidos é aquele que teria sido relatado por Marcos: “Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”. Em uma assertiva que reforça o mesmo conceito ele responde à irônica pergunta de Pilatos sobre se era o rei dos judeus: “Meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, a minha gente houvera combatido para impedir que eu caísse nas mãos dos judeus; mas, o meu reino ainda não é aqui”.
O nosso reinado mundano é transitório, perecível e com uma data de validade que não conhecemos. O mestre propõe o aviltamento das coisas que, equivocamente, valorizamos em demasia durante a breve passagem pela Terra. Ele nos sugere retirar os excessos da bagagem para que a subida seja mais leve, para que o Caminho Sagrado, que resume a jornada existencial, seja percorrido de modo mais fácil.  

Penso nas nossas mais íntimas obsessões, cultivadas e alimentadas por nós, como se fôssemos viver para sempre ou como se determinados momentos não fossem evaporar-se com o passar dos dias, meses e anos, eternizando-se apenas em nossa memória. Há os que amontoam fortunas, assemelhand0-se aos portadores de transtornos obsessivos que guardam entulhos em casa. Os que ganham o mundo e perdem a ternura vital, asfixiando-se de si memos. E os compulsivos por determinos temas, pessoas ou manias. Jamais conseguiriam "andar" sobre as águas do mar.

Jesus reafirma a ideia de um reinado diferente, na outra dimensão, com outro ensinamento: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”

Eis a explícita lição do desapego e da impermanência daquilo que é desnecessário. Quando a inexorável senhora Morte chega, sem hora marcada, joga fora nossos "tesouros", transformando "grandezas" em insignificâncias. 

Os que ardem na fogueira das vaidades são equivocados. Eles esquecem que a festa acaba, às vezes quando menos esperamos. Talvez eu já tenha vivido mais do que a metade dos anos que me foram concedidos aqui nesta dimensão. O suficiente para optar por ser exatamente assim: uma mochileira da existência. Nos embates contra os arrogantes, meu ideal sempre esteve mais próximo da poesia da Mário Quintana; "...ele passarão e eu passarinho"

Nunca almejei a riqueza, o luxo ou ser uma celebridade. Nem luxo, nem lixo, conforme a receita da titia Rita Lee. E fiel ao preceito barthesiano, dos meus preferidos: “Nada de poder, um pouquinho de saber e o máximo possível de sabor”

Pretendo acumular cada vez menos excessos na bagagem, ao som do velho Tim Maia: “não quero dinheiro, quero amor sincero”

domingo, 9 de setembro de 2012

Pé de Jazz

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O “novo” Óleo de Peroba nas Eleições de São Luís


Em meio a um engarrafamento de uma São Luís estacionada, um adesivo colado no pára-choques do carro dianteiro, exibe a frase: Castelo de novo! Numa época em que a Galáxia de Gutemberg tornou-se apenas uma expressão romântica, na era dos bilhões de acessos instantâneos, da profusão ininterrupta de informações, quando o último post começa a caducar em poucos segundos, o que seria mesmo o “novo”? O apogeu da Sociedade em Rede, das tendências do mundo hype, dos impactos da Modernidade Líquida traz a nítida impressão de que não existe mais nada de “novo” na Hiperconectividade Global.
A palavra “novo”, aliás, de tão surrada, parece não surpreender nem o mais brilhante texto publicitário. O slogan castelista chama tanta atenção quanto o “Novo Sabão OMO” e, ao contrário de seus sinônimos (“recente”, “jovem” e “moderno”) remete justamente à ideia de enfadonho. A sabedoria popular define com precisão o mal estar impregnado no termo: “De novo, toda hora!”.  
O apelo ultrapassado cai bem em uma eleição de castelos e palácios que remontam à idade medieval ou de candidatos que já foram tão socialistas quanto a capital dos Estados Unidos, Washington. Os marqueteiros ávidos por transformar sapos em príncipes, castelos e palácios em modernos duplex com vista para o mar, Holandas em Anjos da Guardas enfrentarão o desafio de filmar Fidel Castro fazendo propaganda do Mc Donald’s.
A crise do “novo” no marketing eleitoral nas eleições de São Luís se estende para as alianças e composições das chapas. O “novo” para balancear a candidatura de Castelo seria um Neto, o Evangelista, herdeiro político do pai e da coincidência de origem do seu nome, Evangelho, do grego Evangelion, que significa “boa nova”. Em contraponto, o “novo” Edvaldo Holanda Júnior, que também sucede o genitor na militância, carrega o fardo de um Roberto Racha, digo, Rocha, versão remixada de um velho pagode político.
Enquanto os carros de som esgoelam jingles plagiados, sob encomenda, a inchada ilha de São Luís sofre com a diarréia da festa de seus 400 anos, despejando fezes nas baías e vomitando carros, destinada a se reduzir a um Beco da Bosta, sem planejamento urbano e iniciativas criativas.

Infelizmente, ainda não inventaram um S.A.C. (Serviço de Atendimento ao Consumidor) para os neófitos no Marketing Político que, esquecendo do fator humano, traçam suas estratégias como se estivessem fazendo propaganda do “Novo” Sabão Omo ou do popularmente conhecido Óleo de Peroba.